rebento

Surrupiando sussurros escondidos em cantos encardidos, guardou em sua mochila palavras destoantes saídas de bocas bem distantes. Umas vermelhas, outras azuis, algumas disformes e até aquelas enormes. Encontros consonantais incompreensíveis a uma rima latina – vogais que jorraram, quase todas, da latrina.

Um grande esgoto a céu aberto formado por pássaros mortos ao lado da relva de humanos tortos reacendia a vontade de carniceiros de retomar os caminhos de um desenvolvimento que prometia ser sublime acima do brilho de qualquer crime. Em telas espalhadas, sonhos esquecidos de uma sociedade prometida – o progresso, a materialização da mente, a vida. Havia apenas imagens projetadas para olhos vazios abandonados por escolhidos que se foram como o frio do outono de tantas décadas antes.

Ainda assim, o menino caminhava pra lá e pra cá, juntando de sacos fedidos uma ou outra palavra jogada, detrito. Montava quebra-cabeças de ilustres poetas apagados pelo correr dos anos malfadados – sonhando ser, um dia, o arauto de novos dias que insistiam em não chegar. Sonhos afinal, hão de ficar, ainda que sejam diferentes do que foram, dos que se foram, dos que ficaram e que foram camuflados pelo desespero de tantos que se calaram.

(…)

Num mundo em que ninguém escutava, pouco importava qualquer interação. Às armas só vão os propósitos; em desesperança, não importam, nem mesmo, os mortos.

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