ritual (2012)

Sendo tudo aquilo que é nada, vazia é a evolução destinada.

Não mais que de repente, notei o horror que encerrava o ambiente. Não importa onde nem o que eu fazia lá, apenas tremo de lembrar. Rodeado que estava, cabia a mim apenas observar e rezar para que qualquer entidade etérea me salvasse da perdição a que todos estavam condicionados. Chamo de Eles, chamam de zumbis.

Como caracterizá-los? Numa época em que tudo parecia monótono e estupidamente igual a qualquer padrão estabelecido por qualquer imbecil a que todos veneravam, deparei-me com o escuro e com as luzes nele presas; pareciam hipnotizar. Centenas Deles, afetados. Centenas Deles, condenados. O som que vinha de aparelhos potentes clamava pela falta de controle corporal, e um forte cheiro de álcool emanava dos corpos mimetizados por lentes escuras.

Pareciam buscar objetos de desejo e acasalar-se com pares igualmente estupidificados pelo efeito da transformação, origem de todo o caos. Não sei se a confusão já vinha há muito ocorrendo e apenas ali percebi ou se a eclosão se deu naquele momento. Apenas sei do medo.

O descontrole os fazia imitar movimentos e originar uma dança estranha e engraçada, até, não fosse minha percepção. Baldes contendo líquidos desconhecidos – potencialmente a origem do odor alcoólico — estavam estrategicamente colocados ao lado de cada grupo contendo seis ou sete criaturas. Esses líquidos eram consumidos sem nenhuma moderação, e seus minirrecipientes eram venerados como ídolos de um culto pagão. Não acho que fugisse disso.

Nesse ínterim, continuei despercebido, talvez por pura sorte. Entretanto, o que me intrigava era a semelhança de todos Eles. Movimentos. Idênticos, como se apenas instinto os movesse, nada além disso.

Ao sentirem minha presença, talvez por meu comportamento completamente oposto ao ritual desenvolvido, que requeria grunhidos, êmese e êxtase, encararam-me de maneira inóspita. Pressentindo o perigo, corro de lá e me deparo, na saída, com outras centenas Deles espalhadas por todos os lados. Centenas Deles, afetados. Centenas Deles, condenados.

Desesperado, rezei para que qualquer entidade etérea me salvasse da perdição a que todos estavam condicionados. De certa forma, fui atendido, pois encontrei outros dois indivíduos que não aparentavam ser como todos os outros. O olhar não era vidrado. Era triste, desesperado.

Numa época em que tudo parecia monótono e estupidamente igual a qualquer padrão estabelecido por qualquer imbecil a que todos veneravam, Ninguém se destaca, todos são Ninguém e Ninguém é tudo o que se tem. Nada. Eles são a completude, o vazio. Estamos afundando de mãos dadas neste eterno frio — o humano. Com os dois que encontrei, peguei um copo e virei a garrafa.

Descanso, hoje, em paz.

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