jornada

bast’estar no mar absorto
pr’um naufrágio ver de perto
e num nado meio torto
crer que é tesouro certo

.examina casco morto
,vê na água algo incerto
e mergulha sem um porto
ter ao menos descoberto

.é precis’ao viajante
saber bem por que no fundo
decidiu naquel’instante

procurar o próprio mundo
sem o peso torturante
de viver cada segundo

.sent’o frio à sua volta
,não se lembra da saída
,próprio peito mal suporta
,tem’ali perder a vida

.bat’os braços desenvolta
,pel’escuro foi traída
,mas no fim vê uma porta
e de ar é bem servida

.ao acaso vão-se planos
espalhados pelo vento
.viajantes são ciganos

sujeitados ao tormento
de voltar aos desenganos
com’etern’experimento

.tem no rosto seu sorriso
de alguém que bem por pouco
viu seu fim sem um aviso
e gritou estando rouco

.ser da terra improviso
,conceder e tomar soco
,conhecer o qu’é preciso
para calcular o troco

.danç’a dança da areia
,uma valsa com siris
,cant’o canto da sereia

balançando seus quadris
sob a lua que clareia
alma salva por um triz

.logo chora de tristeza
,luto sente pel’encanto
moribundo na certeza
de não ter cessad’o pranto

.de encontr’à natureza
natural qualquer espanto
;é do sust’a realeza
,é do não saber o manto

.caminhando rum’ao nada
vai sem meta calejado
pela pedregos’estrada

que desgasta seu solado
.afogad’em vã jornada
,é do mund’um exilado

.ao chegar de nov’aurora
sobr’o rosto peregrino
,levantando sem demora
,ele vai a seu destino

.mais um pouco é a hora
do mergulho clandestino
,de absorto ver de fora
o nadar do desatino

.quis de algo ser a parte
,do sentido o enfim
,a inspiração da arte

,d’um eterno não o sim
,o aceno de quem parte
,o começo de um fim

,mas não er’ali senão
só um peixe sem um rio
ou formiga sem verão
ou o sol que brilha frio

,sem caminho, sem razão
,fugitiva de tardio
desalento da prisão
d’um amor bem arredio

.o motiv’é bom saber
do mergulho nado torto
par’em seu profundo ser

,quando não mais absorto
,ver um nov’amanhecer
de mal sucedid’aborto

.desengano é vital
,é do viajante sina
,pode ser cair fatal
,da doença a vacina

,entretanto não há mal
no saber que na cretina
bifurcada dor mental
há eterna oficina

em que moldes e projetos
,ferramentas à vontade
,uns detalhes bem discretos

cheios de ambiguidade
trazem a quaisquer desertos
sombra fresca, amizade

.descansada de seu medo
,com os olhos lá na frente
,despediu-se do rochedo
,deu seu adeus recorrente

.inspirou tod’o segredo
,expirou suavemente
,deu dois passos, viu que cedo
não teria sol poente

.nada tem de unidade
dividido viajante
que em casa vê saudade

,mas se vê tão inconstante
e deseja’o fim da tarde
ser do mundo habitante
.

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